quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Volta às aulas


O primeiro dia de aula neste ano foi com emoção de estréia. Escola nova, tudo para ser descoberto: espaço, amigos, professores.  Enquanto assava o rocambole de carne e brócolis, me concentrava no propósito de não pagar o mico de chorar no primeiro dia (nunca escapei desse papelão nas minhas estréias e nem nas dela). Teria dado certo, se eu não me sabotasse. Sorrateiramente fui colocar um pacote do biscoito preferido dela na mochila. Vai que ela não gosta de nada que tem na cantina da nova escola? Não satisfeita, escondi também um bilhetinho de boa sorte, carimbado com um beijo de batom rosa. Foi aí que boca tremeu e em questão de segundos meus olhos estavam marejados. Fui flagrada por ela neste exato momento. Pronto, o mico se materializou. Ainda bem que foi em casa e não no portão da escola, né?
- Mãe, você tá chorando? Não acredito!
- Ah, Bela, deixa, sempre chorei no primeiro dia de aula, quando mudei de escola...
- Mas por que? Sei lá, ficava com saudade da minha mãe e com um pouco de ansiedade, uma cosquinha danada na barriga, que logo passava. Hoje é diferente, estou emocionada porque você vai para sua nova escola, é coisa de mãe.
 - O que é isso aí?
 - Um bilhete para você.
 - Me dá, deixa eu ler.
 - Não, é para ler na escola, não estraga.
 - Tá boooooom, só abro lá (fazendo cara de supermadura ao atender meu desejo pueril).
E já na escola, lá foi sala adentro, segura e feliz, depois de nos apresentarmos à professora. Fiquei pela janela olhando minha pequena-grande-menina-sabe-tudo da terceira série e pensando nas conversas sobre o que ela quer ser quando crescer. Imaginei-a com seu uniforme de astronauta, manipulando fórmulas no seu laboratório ou de microfone e bloco em punho, como muitas vezes a vi imitando os repórteres do noticiário local. Sabiamente ensina a canção do Palavra Cantada, "brincadeira, choradeira, pra quem vive uma vida inteira." Em todas as estréias de minha filha, muitos micos ainda hei de pagar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Yo digo baila

Tu tienes...es que somos muchos...ai, que belo sonido para bailar.

O meu ganza faz chica-chica-bum

Carnaval para os que pulam quatro dias, a receita é: bate um suco de clorofila por dia, meu rei. Aos que aproveitam o feriado para descansar, dou a dica de caldinho de vôngoles ao vinho, espetinhos de lula com molho de shoyu e gengibre para regar, alguns bons filmes locados e brisa. Se o sol aparecer, melhor. Vamos ouvir marchinhas, cubanitos, reggae e sacolejantes misturas eletrônicas com latinidades a caminho do mar. Confete não porque gruda na pele suada, mas serpentina pouca é bobagem.
A Nega Tide ganhou um megapainel no acesso dos camarotes da Nego Quirido, com uma foto exibindo seu baita sorrisão. Fui lá no lançamento do novo espaço "vip" e senti aquela melancolia que o Carnaval injeta no peito da gente. Sempre morre um bamba pra comunidade chorar, em todo salão tem um pierrô pela colobina a lamentar... essa festa do Momo é como diz o Átila Ramos, artista plástico e autor de alguns livros sobre o entrudo na Ilha de Cascaes: "Não sei de onde vem o espírito carnavalesco", da alegria ou da tristeza? Do profano ou do sagrado? É pra rir e chorar ao mesmo tempo, digo eu.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Mr. Black Green e os segredos da cozinha para a felicidade


Quando cozinhava para crianças, costumava ter no cardápio uns pratos divertidos, tipo essa saladinha aí que fiz outro dia pra Bela e chamei de Black Green. Não é uma graça? O efeito é mágico e para quem torce o nariz diante dos verdinhos e demais colores no prato (quanto mais colorida for, mais saudável é a refeição) e a brincadeira de montar o personagem é um estímulo à experimentação. De vez em quando faço as minhas panquecas coloridas dos duendes, deliciosas e lindas como se fossem de massinha de modelar. A receita é a mesma das tradicionais. Apenas substituo a água (nunca uso leite) por suco de espinafre, cenoura, beterraba. Aí, o recheio pode ser de ricota com nozes, carne temperada, frango com açafrão (essa é bom usar na de massa verde ou vermelha).  Pensei que nessa fase roqueira-pre-adolescente-precoce ela ia esnobar meu James Brown orgânico, mas abriu aquele mesmo sorriso (não, ela gargalhou meeeeesmo) de pequenina, achando graça do boneco. A boca do carinha, assim meio de lado, fazendo tipão, é proposital, ok? Fiquei feliz ao ver que minha menina não perde "o bonde" (isso é inevitável e necessário, que fique claro aos pais) mas preserva a essência  de sua infância. Que seja criança enquanto tem de ser e não uma mini-adulta presa aos padrões impostos pela mídia e pela sociedade de consumodescontrol. Não sou comunista, nem consumista, sou normal. Minha filha cresce assim. Li outro dia sobre os perfis de crianças na faixa etária da minha e me apavorei com uns tipos bembi (licença para usar o nome do seu blog, Cibela?) que estão por aí: nerds, péla-sacos, peruinhas, descolets  decorados com o verniz social dos pais ou construídos pela ausência destes em suas rotinas.A falta de tempo, as exigências da vida moderna e todos os culpados que apredemos a reconhecer nos divãs ou nos artigos de especialistas nos confortam. Mas nada me parece mais simples e elucidativo: a inocência na dose certa faz bem para a alma e constrói pessoas melhores, com histórias de vida bem mais saborosas. Bom apetite !     

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

India dos sonhos


Este foi o filme vencedor da edição 2009 do Festival Internacional de Cinema de Turismo, em Viena. Falei no post Cinema para viajar (aqui no Bombocado e em primeira mão, busca lá por novembro) que Florianópolis é a representante do Tour Film Brazil para a América Latina (Santa Catarina captou esse megaevento no final do ano) e vai receber o Festival em maio próximo. No lançamento que aconteceu aqui na capital na semana passada a platéia embarcou nesse vídeo (Incredible India) que foi muito feliz ao representar a essência do turismo como experiência, valorizando as emoções e as sensações. Essa é a pegada do marketing especializado em viagens e turismo dos destinos mais competitivos do mundo. As vivências são o que tornam uma viagem inesquecível. O slogan "Brasil Sensacional", criado pela Chias Marketing para a Embratur, saiu de uma pesquisa com turistas estrangeiros que conheceram algum destino brasileiro. A pergunta era que palavra traduzia a experiência vivida no País. A maioria cravou "sensacional!". Um colega de trabalho que esteve recentemente na Índia para o casamento da filha (com a cerimônia tradicional que muitos brasileiros conheceram  pela última novela das oito) relatava sua passagem pela comunidade tibetana, sua viagem de sete horas até a nascente do rio Ganges e nem precisou verbalizar o que sentia enquanto exibia suas fotos. Tava nos olhos dele:  incrível! E na bagagem, além das emoções, ele a e a esposa trouxeram muito curry, chá, incenso e panos. Vou lá preparar uma receitinha qualquer hora com eles.
Faz pouco tempo eu sonhei que descia por escadarias intermináveis, meus cabelos soltos e muito mais longos do que realmente são estavam enfeitados com lenços de todas as cores. Uma fumaça perfumada dos incensos se espalhava com a brisa fresca e a música me alegrava como não sei descrever. Pois quando o operador apertou o play desse vídeo no lançamento do Festival ativou minha memória onírica. Agora durmo sempre pensando em embarcar no dia seguinte pra Índia. Hoje só amanhã.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pera, uva, maçã


Salto da cama às 8:30 em ponto com a receita de torta de meu colega de repartição Fefê (MC de eventos, organizadores de grandes festas, carnavalesco e babados afins) na cabeça. Compro mais fruta do que conseguimos consumir em casa e aí elas ficam com aquela cara de ontem. E foi de tanto ouvir essa minha ladainha que Fefê ordenou:  - pega aí um papel e uma caneta que vou te ensinar uma torta fácil para você fazer com suas bananas moles. A receita ele aprendeu quando foi morar sozinho, nem sei quanto tempo faz, ele é uma criança grande com um coração enorme.
Sua cara de nojo quando eu disse que ia preparar um doce com a penca de bananas escurecidas, usando açúcar mascavo me fez repensar. Já disse que não sou boa com doces, mas topei aprender. Não se trata de uma receita complicada, nem exige batedeira (me aborrece ter de lavar aquelas hélices) e fica uma delícia. A vantagem é que você pode usar outras frutas, pera, uva, maçã...melancia não, né?
É assim: junte cinco colheres das de sopa de farinha de trigo (pode ser da integral, se preferir), mais cinco de açúcar, cinco de fermento. Misture tudo. Depois corte as bananas (ou outra fruta) em fatias médias. Unte uma forma com margarina e comece a montar a torta colocando uma camada da mistura de farinha, outra de banana e vá adiante. Aí, você bate (na mão mesmo) um ovo, com uma medida de uma xícara de leite e canela. Regue a torta com essa mistura, procurando distribuir bem por toda a enxtensão do tabuleiro. Aplique colheradinhas de margarina sobre a torta e mande para o forno. A minha ficou uns vinte minutos até dourar bem.
Não sei vocês, mas eu adoro banana e é raro não ser dessa fruta meu pedido em confeitarias e padocas. A menos que me engane. Como uma vez em Paris (ai, que tuda!) quando eu e minha sista Virgínia babamos por um doce na vitrine de uma loja e fomos logo pedindo dois, um para cada. E era enorme, parecia apetitoso, mas não era. Nem posso lembrar daquele gosto horrível de ovo. Ambos foram parar na lixeira da primeira esquina. Aprendemos a perguntar (e olha que ela fala francês!) e a dominar os impulsos motivados pelo zóião.
Foto da torta que fiz na próxima semana, ok? Vou fazer uma maior, essa já foi. Meu segundo doce é uma homenagem à Ofélia Ramos Anunciato e sua cozinha maravilhosa. Ela é minha Julia Child, autora da coleção de livros com acabamento dourado que minha mãe usava na cozinha nos anos de 1970 e apresentadora do programa do qual a Renatinha Pop sonhava em ser produtora. Não duvido que ainda sonhe.

Julie, Julia e eu

Famintas desde a hora do almoço e sedentas pela programação das 21:40 no cinema, eu e minha fiel escudeira não esperávamos rir tanto, como há muito não fazíamos. Devoramos uma pizza média de atum (eu prefiro aliche, mas...) e portuguesa em 15 minutos e disparamos para a Sala 2. Por nada eu perderia esse filme, falei no post sobre o livro de receitas afrodisíacas e contos de Isabel Allende, lembram? Uma louca  Julia Child (Maryl Streep) garantiu quase todos os momentos de total descontrole sobre nossas gargalhadas na fileira quase vazia que nos permitiu tirar os sapatos e nos estarrarmos como no sofá de casa. Outra atrapalhada, mas apaixonada Julie Powell (Amy Adams) me fez refletir sobre algumas patinadas (sim, eu já liguei pro trabalho e avisei que não ia, chorando com o pé inchado por uma megatorção causada pelo pudim de leite espatifado no chão da minha primeira cozinha) entre receitas que não deram certo e saborosos bocados de vida.
Recomendo, muito, muito mesmo Julie& Julia e queria ter o livro de cozinha para mulheres americanas sem empregadas. Lá pelas tantas tem Talking Heads (psyco killer) no hilariante assassinato das lagostas. Isso me comoveu e me fez cantar bem alto (eu não temo platéias, ainda mais quando são pequenas como essa de hoje). E eu amei a blusinha com estampas de cerejas (o botton de Julie é meigo) em perfeitas leituras aplicadas para as duas personagens em cenas sequenciais.

Entre hmmmmms e eeeeeeecas, vamos lá, deixa eu listar o que nunca vou tentar preparar até porque jamais tive coragem de provar: ovos nevados (putz, que nojo, não esperava ver essa receita no filme)  e ossobuco (não tá no filme, mas tenho trauma causado pelo incidente que presenciei certa vez com meu colega de trabalho "uógner" que um dia eu conto). E quanto a desossar um pato ou qualquer outra ave, ainda vou tentar. Acho isso mágico, já vi feito, mas quero acompanhar o processo, dominar a arte. Só não me desafiem a matar nada. Aliás, em Afrodite, Isabel Allende também relata (e repudia) algumas atrocidades inevitáveis em receitas que "inibem a libido" em frações de segundos. O romance fofinho de Julie e Eric rende deliciosos suspiros. Como não gosto tanto assim de açúcar, cheguei em casa doida pela trufa de chocolate, mas me contentei com a gelatina de framboesa. Tinha esquecido que foi minha dose de ontem, depois do jantar. Também amo manteiga Julie e Julia, mas só uso na culinária. Meu café da manhã, já faz algum tempo, é chá branco, fruta e bisnaguinha com requeijão light. Iogurte pra variar. Tá bom, cada coisa a seu tempo.