Atropelada pela rotina, deixo minha programação da semana fixada em quadradinhos de papel na mesa de trabalho, na capa de uma agenda que carrego na bolsa ou presa por imã na geladeira. Só percebo quanta coisa não pude fazer lá pela sexta-feira. E sempre são as coisas mais legais, como a estréia de Luiz Henrique no Balanço do Mar, o filme da Ieda Beck, ali no Centro, promovido pela Cinemteca Catarinense no Centro de Floripa e eu não pude ir. Tudo bem, oportunidade não faltará para ver o manezinho bossa nova sob o olhar dessa brilhante cineasta catarinense que partiu há dois anos.
Moro aqui perto da curva onde Luiz Henrique (também) se despediu da vida, depois de grandes aventuras pelo Brasil e o mundo, só no banquinho e violão. Minha filha já tem a história do artista na ponta da língua, conta sempre que falamos o nome do nosso condomínio para alguém (é uma homenagem a Luiz Herinque Rosa). Sabe também que o trabalho dele, quando retomou a vida na Ilha, era ali na frente, no Armazém Vieira. Inclui tudo isso no seu script sobre o artista. Ontem, feriado (a escola já não funcionou na segunda e deixo aqui meu protesto de mãe trabalhadora!) ela encontrou Luiz Henrique ao percorrer a feira de integração multicultural catarinense ali no Centrosul comigo.
- Mamy, olha o Luiz Henrique Rosa!
Fiquei impressionada com as reações dela ao deparar-se com o que já conhecia, de leituras, vivências e do aprendizado na escola.
- O Cruz e Sousa! Não sabia que ele era assim.
- Isso é uma Nau, você sabia Mamy? Só que essa não é das maiores.
E o Meyer Filho, a baleia Franca, os cânions, o zoo de Pomerode, o traje típico alemão, a Festa do Divino, os bailarinos do Bolshoi. Ela deu um show, poderia bem ser monitora da mostra.
Parou diante do inseto e perguntou (não teve paciência para ler o painel, claro)
- O que esse grilo gigante faz aqui?
Era o entomologista Fritz Plaumann (que fez Seara tornar-se uma referência no estudo de insetos). Resumi a história para ela e esperei pela réplica.
- Ah, legal.
Pareceu que tudo o que falei ou mostrei foi nada. Realmente muito pouco interessante naquela hora. Mas sei que ficou o registro, que ela vai puxar o arquivinho, quando a professora chegar nesse capítulo do livro. Corro para cobrir um painel sobre políticas públicas para o turismo e, quando vejo, ela está de caneta e papel ao meu lado, sentada, anotando tudo, exatamente como eu.
- Você tá copiando tudo da tela, né mãe?
- Não filha, tô anotando coisas que o palestrante fala pra depois fazer minha matéria, palavras-chave, frases, ideias.
Olhou para meu bloco, caligrafia e sinais indecifráveis, escolheu copiar o que estava projetado no telão. Perdi o controle do que ela degustava saltitando pelos estandes das regiões turísticas (bolachas caseiras de montão!) carreguei uma megasacola de brindes, cupons para concorrer a viagens, tudo o que ela recolheu na feira de turismo. Ajudou os colegas da sala de imprensa a acessar o computador, que obviamente já havia fuçado e, portanto, sabia que não carecia de senha para entrar. Ensinou o atendente do quiosque de comida típica italiana o que era molho a matriciana (ela queria esse no seu talharim, mas só tinham molho a bolonhesa e não sabiam que catso! era esse tal matriciana) e me fez ficar da cor de um pimentão.
- Agora vamos embora?
- Você ainda precisa dormir hoje na vovó, trabalho aqui muito cedo amanhã.
- Só queria saber quando volto a dormir em casa...
Tá vendo filha, essa profissão não é brincadeira.
quarta-feira, 24 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
Obrigada, obrigada, obrigada
Cinco da matina meu celular desperta esse corpo cansado da labuta até tarde (visitem o I Salão catarinense do Turismo lá no Centrosul até sábado, é muito bacana) e qual minha surpresa? Compromisso profissional adiado, nem penso em voltar para a cama. Afinal, é aniversário de Floripa, essa querida companheira, berço aconchegante que acolheu a carioquinha aos quase seis anos. Me embalou tão carinhosamente e me fez ser grata pelo resto da vida aqui na Terra. Floripa, linda, misteriosa, solar, paciente, me abraça que eu te abraço também. É cedo, a baía Sul está calma, parece exclusiva daqui de cima. Sou grata a você, natureza. Me espera, vou aí te ver mais de perto, te admirar, deixar teu manso mar me inundar, teu verde me pintar, teu som me embalar.
E lá estava eu, caminhando sobre o trapiche até o meio do mar, meu tapete imaginário para sobrevoar a imensidão. Pouco a pouco minha mente começa a se esvaziar. O nada depois do tudo que vejo, somente sentimentos bons e puros, o simples contemplar do movimento da vida é um presente de Deus, do Universo. Obrigada, obrigada, obrigada. Sem as lentes dos meus óculos tudo fica ainda melhor, as águas parecem escoar para dentro de mim, meus olhos não possuem filtros e recebo toda aquela energia de vida que vem do oceano, do céu. Obrigada. Quero um pouco mais, minha respiração é calma, relaxante, um sono desperto toma conta de mim, não sei se isso é o que posso chamar de Nirvana (lá, onde o vento do carma não sopra) só sei que me faz bem e o desejo a cada dia mais e mais. Aspirações gerais do bem viver (ensina Hermann Hesse) não se dirigem mais ao Buda ou Lao Tse do que à Ioga. O ser humano pode cultivar o que bem entender, ser o senhor de sua alma.
Peixes, pássaros, pessoas (já cantam os The Darma Lóvers) são únicos nessa harmoniosa paisagem, eu os amo, eles me amam também. Isso é o que me supre. Obrigada, seja plena e para sempre viva esta Ilha.
domingo, 21 de março de 2010
Simples vida
Sabedoria é algo que não se guarda, se aplica e se dissemina. Adorei esse texto de Malba Tahan (Júlio César de Melo) um matemático que mergulhou na cultura oriental e, a partir da ciência exata, criou uma inusitada narrativa, a exemplo dessa que segue.
Era uma vez um rei que disse aos sábios da corte:
_ Estou fabricando um precioso anel. Adquiri um dos melhores diamantes possíveis. Quero esconder dentro do anel uma mensagem que possa me ajudar em momentos de desespero total e que ajude meus herdeiros e os herdeiros de meus herdeiros para sempre. Tem que ser uma mensagem pequena, que caiba debaixo do diamante do anel.
Todos que escutaram eram sábios, eruditos, que poderiam escrever grandes tratados, mas, uma mensagem com não mais de duas ou três palavras que pudessem ajudar em momentos difíceis…
Eles pensaram, procuraram em livros, mas não puderam achar nada.
O rei tinha um velho criado que também tinha sido criado de seu pai. A mãe do rei morreu cedo e este criado havia cuidado dele, então era tratado como se fosse da família. O rei sentia um imenso respeito pelo velho homem, de forma que também o consultou. E este lhe falou:
_ Não sou sábio, nem erudito, nem um acadêmico, mas conheço uma mensagem. Durante minha vida no palácio, conheci todos os tipos de pessoas e, em uma ocasião, conheci um místico. Era convidado de seu pai e estava a seu serviço. Quando, com gesto de agradecimento deu-me esta mensagem, o velho homem escreveu em um pequeno papel, dobrou e entregou ao rei. _ “Mas não leia.” - disse ele - “Mantenha-o escondido no anel, somente abra quando não tiver outra saída”.
Esse momento não tardou a chegar. O seu Reino foi invadido e o rei perdeu a batalha. Estava escapando em seu cavalo e seus inimigos o perseguiam. Estava só, e seus perseguidores eram muitos. Chegou em um lugar onde o caminho havia acabado, totalmente sem saída. Na frente havia um precipício com um vale profundo, cair seria o fim. Não podia voltar, porque o inimigo havia fechado o caminho. Já se podia ouvir o barulho dos cavalos. Não podia continuar e não havia outro caminho.
De repente lembrou-se do anel. Abriu-o, tirou o papel e lá encontrou a mensagem pequena, tremendamente valiosa, que, simplesmente, dizia:
“Isto também passará”.
Enquanto lia a mensagem, sentia que caía sobre ele um silêncio. Os inimigos que o perseguiam deveriam ter se perdido na floresta ou se enganado de caminho. O certo é que pouco a pouco deixou de escutar os cavalos.
O rei sentia-se profundamente grato ao criado e ao místico desconhecido. Aquelas palavras eram milagrosas. Dobrou o papel, pôs novamente no anel, juntou seus exércitos e reconquistou o Reino.
No dia em que entrou novamente vitorioso no palácio, tinha uma grande celebração, com músicas, danças… e ele sentia muito orgulho de si mesmo.
O velho criado estava ao seu lado na carruagem e falou:
_ Este momento também é adequado, olhe novamente para a mensagem.
_ Por quê? Agora eu sou vitorioso, as pessoas celebram minha volta, eu não estou desesperado, não estou em uma situação sem saída.
_ Escute-me - disse o velho criado - “Esta mensagem não é só para situações desesperadoras, mas também prazerosas. Não é só para quando estiver derrotado, mas para quando estiver vitorioso. Não só para quando for o último, mas para quando for o primeiro”.
O rei abriu o anel e leu a mensagem:
“Isto também passará”.
Novamente sentia a mesma coisa, o mesmo silêncio em meio a multidão que celebrava e dançava, mas o orgulho e o ego haviam desaparecido. O rei pôde compreender a mensagem. Tinha sido iluminado.
Então o velho homem falou:
_ Recorda-se de tudo o que você passou? Nenhuma coisa ou emoção é permanente. Como o dia e a noite, há momentos de felicidades e momentos de tristezas. Aceite-os como parte natural das coisas, porque eles fazem parte da natureza de sua vida.
sábado, 20 de março de 2010
Nossa ondinha
Atenção amigos violeiros, desafio a todos para um luau (ô, a gente vive numa ilha!) com farta trilha sonora de noites quentes e céu claro. Eu (revivendo) e Bela (descobrindo) Sublime desde janeiro tá muito bom e a gente quer dividir essa paixão de verão. Ouve essa versão de Rivers of Babylon, é das minhas preferidas. Aliás, o acústico (Bradley Nowell & Friends) é tudo de bom.
Enquanto isso aqui na Terra...
Se não fossem o mar, a brisa, a paisagem de cinema, meus amigos, os da minha filha, minha família, meu canto, não acharia mais tão absurdo pensar em voltar para minha amada terra de ninguém. De vez em quando o vento trazia o cheirinho bom da maresia me chamava à Terra. Pensei que fosse surtar no inacreditável congestionamento da tarde dessa quinta-feira. Nunca imaginei levar duas horas e meia presa no trânsito de Floripa. Nem a respiração do yoga, nem minhas mais positivas telas mentais me salvaram do estresse coletivo que se materializou nessa cidade. E olha que o pior dia (o do megatrânsito) é sexta, quando nem cogito cruzar a ponte. Mas é que eu fui levar meu pai ao tratamento dele. Do centro ao continente levei uma hora e meia, só na marcha lenta. Na volta recorri a caminhos alternativos para escapar do engarrafamento que começava já no túnel de saída da rua da casa dos meus pais, ainda na BR-101. Me senti em plena Marginal Tietê, exercitando todo o desprendimento que adquiri com relação ao meu precioso tempo quando não me restava outra postura. A vida na selva urbana educa a gente.
Da ponte percebi que o melhor seria chegar ao Itacorubi pelo Sul. Parada na rua principal do bairro, me distraio tentando relembrar onde ficava o clube local, o Limoense (já fui numa domingueira lá com a Gisa. Como a gente se divertia...). O papo de duas moradoras na calçada me arranca do transe e também assalta minha esperança. Percebo que não vou chegar antes das 19 horas no local pretendido.
- Credo, morreu alguém famoso aqui do Saco, nunca vi tanto carro assim, só pode ser cortejo.
As duas caem na gargalhada e eu embarco no clima de piada. O melhor a fazer é rir, sabemos disso.
Olho para meu pai em busca de alguma cumplicidade, mas ele dorme o sono dos despreocupados. Já falei aqui nesse blog que admiro isso nos velhos, a total resignação. Pulo três músicas seguidas no CD e percebo no meu gesto frenético um sinal de que a paciência se esvai. Eject!
O próximo, por favor. Me vem Lenine com uma certeira: - Esse lugar é uma maravilha, mas como é que faz pra sair da ilha? É pela ponte, pela ponte.
Lenine, tá tudo trancado lá, rapá.
E ele responde em outro verso: - A ponte não é para ir nem pra voltar, a ponte é somente atravessar, caminhar sobre as águas desse momento.
Tá certo. Bora.
Da ponte percebi que o melhor seria chegar ao Itacorubi pelo Sul. Parada na rua principal do bairro, me distraio tentando relembrar onde ficava o clube local, o Limoense (já fui numa domingueira lá com a Gisa. Como a gente se divertia...). O papo de duas moradoras na calçada me arranca do transe e também assalta minha esperança. Percebo que não vou chegar antes das 19 horas no local pretendido.
- Credo, morreu alguém famoso aqui do Saco, nunca vi tanto carro assim, só pode ser cortejo.
As duas caem na gargalhada e eu embarco no clima de piada. O melhor a fazer é rir, sabemos disso.
Olho para meu pai em busca de alguma cumplicidade, mas ele dorme o sono dos despreocupados. Já falei aqui nesse blog que admiro isso nos velhos, a total resignação. Pulo três músicas seguidas no CD e percebo no meu gesto frenético um sinal de que a paciência se esvai. Eject!
O próximo, por favor. Me vem Lenine com uma certeira: - Esse lugar é uma maravilha, mas como é que faz pra sair da ilha? É pela ponte, pela ponte.
Lenine, tá tudo trancado lá, rapá.
E ele responde em outro verso: - A ponte não é para ir nem pra voltar, a ponte é somente atravessar, caminhar sobre as águas desse momento.
Tá certo. Bora.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Céu azul, verde mar
Onde vai despido das suas asas brancas que proporcionam voos pelos mais inimagináveis céus? Aquele azul celeste tão limpo. Chegou tão perto do sol que quase cegaram os seus olhos verde-mar, lindos de assustar, iluminando o sorriso alegre que traz a vida para o tempo que não pode mais esperar.
Do anjo sem as asas não procure o olhar, mesmo que muito queira um mergulho profundo naquele oceano de paz. É do saber dos anjos nada despertar antes da hora.
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